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De volta à sala de aula: o retorno aos estudos na fase adulta é realidade cada vez mais frequente

Estudante do curso técnico Subsequente de Agricultura, Francisco de Paula Falcão e Castro é doutor em Sociologia pela renomada universidade francesa de Sorbonne, mestre em Sociologia (UFPE), além de graduações em Ciências Econômicas (UNICAP) e Filosofia (USP).


O currículo, que ainda inclui especializações e licenciaturas, não é a única diferença que ele tem em relação ao restante da turma que frequenta, no Campus Vitória de Santo Antão.  Sua idade é de 75 anos, enquanto a média do restante dos estudantes é de 18.

Evidentemente, a motivação que o levou de volta à sala de aula também é diferenciada – assim como os objetivos de outros estudantes que, após a maturidade, decidem optar por um curso técnico. Histórias como essas são cada vez mais comuns no IFPE. A instituição conta com cerca de 1.100 discentes com mais de 50 anos. Parte desse número inclui estudantes da modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA). Outra parte, aposentados e profissionais já com formação superior.

A situação pode ser reflexo de um retrato atual do Brasil: o IBGE registra um crescimento da população idosa. Segundo o Instituto, a expectativa de vida no país subiu de 62,5, em 1980, para 74,9 anos, em 2013. Aliado a esses números, pesquisas acadêmicas que relacionam educação à terceira idade sugerem benefícios para quem continua estudando após a velhice, como qualidade de vida, bem-estar físico e mental, segurança financeira, aumento da participação e adaptação social e até redução de custos com saúde.

As vantagens do aprendizado contínuo são conhecidas por Francisco. Professor aposentado da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ele mora desde 2007 em um sítio no município pernambucano de Glória de Goitá. Lá, são colocados em prática os ensinamentos que recebe no curso de Agricultura e também Zootecnia, cursado no IFPE, entre os anos de 2013 e 2014. Em relação a essas formações técnicas, confessa que o objetivo não é o diploma, mas sim o conhecimento.

O sítio está em processo de conversão agroecológica, pois passou a ser utilizado pelo IFPE como uma Unidade de Demonstração em Agroecologia (UDA), desde janeiro de 2015. Na propriedade, são realizadas atividades de extensão e pesquisa por parte de estagiários e professores do PDVAgro- Programa Despertando Vocações Agrárias (ver página 3). “Desejo que o sítio seja uma referência em agroecologia em Glória do Goitá e que as famílias das comunidades próximas possam beneficiar-se dessa rica experiência”, almeja.

Outro benefício de voltar à sala de aula é a convivência com a juventude, em seu frescor. “Os alunos têm a jovialidade e a alegria próprias de sua idade, e sinto satisfação em estar no meio deles. Há um bom grupo que estuda para valer. Admiro-os e boto fé neles”, revela. O aposentado divide os estudos com outras inúmeras atividades que julga prioritárias. “Reservo tempo para ficar com a família, ler muito em casa, orientar meu empregado e praticar natação, para manter-me bem fisicamente e para competir”.

Os prazeres de voltar a estudar também fazem parte da vida de Ângela Otoni Brandão, 61 anos, estudante do curso técnico de Artes Visuais, no Campus Olinda. Formada em Administração, a carreira dela foi na Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) até se aposentar, aos 48 anos, para se dedicar aos dois filhos e ajudar o esposo num pequeno comércio. “Sempre tive vontade de voltar a estudar. Não estava feliz com a aposentadoria, pois era acostumada ao trabalho”, revela.  A chance desse retorno surgiu quando o Campus Olinda abriu as portas. “Estava procurando cursos para meus filhos e resolvi aproveitar a oportunidade. Já fazia artesanato e o curso me ajudaria”.

A aposentada já está no segundo semestre e se tornou exemplo de motivação, não só entre os colegas de sala e professores, mas para toda a família. Uma de suas irmãs, Lídia Maria Otoni Brandão, 62 anos, ingressou no curso de Logística, no Campus do IFPE, em Igarassu. A outra, Cláudia Otoni Brandão, 55 anos, cursa Informática para Internet, na modalidade EAD, oferecido pelo IFPE no Recife. E não para por aí. Depois de incentivá-las, Ângela agora prepara os filhos para que também ingressem num curso técnico oferecido pela instituição. “Só sossego quando eles passarem. O curso técnico é mais prático, além de abrir nossa visão para o mundo. É tudo maravilhoso. Minha vida está renovada. Não vou mais sair do IFPE. Pretendo começar outro curso, quando concluir este”, conta.

Apesar do entusiasmo, Ângela revela encontrar algumas dificuldades para estudar, por estar fora da escola há tanto tempo. O problema vira um desfio que é superado com alegria. Depois das aulas, ela sempre reserva espaço na rotina para estudar em casa. É alimentada pelos sonhos que também passa pelos aspectos financeiros. “Quero trabalhar, mesmo informalmente, e ganhar dinheiro”. Dessa vez, como técnica em artes visuais, fazendo algo que ama e encontrando felicidade no trabalho.

Esse mesmo sonho é compartilhado pela colega de sala, Luégia Alves, 55 anos, que também optou pelo Curso Técnico em Artes Visuais, por conviver com o mundo artístico desde criança. Nasceu e se criou no Largo do Amparo e trabalhou na Oficina Guaianases, onde conviveu com artistas plásticos. Formou-se em Ciências Sociais, mas nunca exerceu a profissão. Trabalhou como secretária e deixou a atividade para cuidar dos filhos. Atualmente, ganha a vida confeccionando bolas e cintos de chitas. Já expôs seus trabalhos em eventos, como Arte por toda Parte e também no Festival de Inverno de Garanhuns. Busca no curso a técnica para a arte que já realiza.

“Estou entusiasmadíssima e amando o curso, que é muito prático. Até em disciplinas como História da Arte, temos atividades práticas. Estou ansiosa para pagar a cadeira de estamparia. Quero colocar em prática tudo o que estou aprendendo aqui, para me realizar e ganhar dinheiro”Luégia e Ângela são as duas mais velhas de uma sala onde predominam jovens. A convivência é saudável e seus exemplos colaboram com o desenvolvimento de toda a turma. “Por terem uma história de vida rica, tanto no campo profissional quanto no pessoal, esses alunos são mais dedicados.

Eles têm um nível de consciência tão elevado que acabam colaborando com o desenvolvimento de toda a classe, trazendo harmonia”, garante a professora delas e também coordenadora do curso de Artes Visuais, Luciana Tavares. Segundo ela, estudantes mais velhos, como as duas, têm sempre as notas mais altas, boa frequência, pontualidade e participam ativamente das atividades do curso.


Fonte:  //portal.ifpe.edu.br/